Há uma década, Ryan Carrier, um ex-gestor de fundos de cobertura, observava com preocupação a ascensão descontrolada dos sistemas de Inteligência Artificial. Algoritmos do Facebook agitavam eleições, um chatbot da Microsoft proferia absurdos históricos, e o Autopilot da Tesla registrava suas primeiras fatalidades. “Não havia governança, supervisão ou responsabilidade”, lamenta Carrier, vendo um futuro sombrio para seus filhos.
Foi nesse contexto que, em 2016, Carrier fundou a ForHumanity, uma organização sem fins lucrativos dedicada a desenvolver ferramentas para auditar sistemas de IA. Contudo, apesar de sua missão crucial, a ForHumanity operou com recursos limitados, arrecadando apenas algumas centenas de milhares de dólares e permanecendo como um ator secundário na indústria.
O Gigante da IA e a Promessa Filantrópica
Este cenário está prestes a mudar drasticamente. A ForHumanity e inúmeras outras ONGs globalmente, dedicadas desde a contenção da IA até a erradicação da pobreza e a promoção da democracia, aguardam ansiosamente uma fatia do que promete ser a maior onda de filantropia em décadas.
Grandes empresas de IA, como a OpenAI (criadora do ChatGPT) e a Anthropic (desenvolvedora do Claude), que valem quase um trilhão de dólares cada, preparam-se para suas ofertas públicas iniciais (IPOs). Esse movimento tornará centenas de seus funcionários, atuais e antigos, extremamente ricos.
“Uma nova geração de bilionários da IA está surgindo, e com eles, a chance de catalisar mudanças sociais em uma escala sem precedentes.”
Altruísmo Eficaz e Compromisso Empresarial
Muitos desses novos ultra-ricos se alinham com a filosofia do “altruísmo eficaz”, que incentiva doações de alto impacto o mais rápido possível. Os sete fundadores da Anthropic, por exemplo, prometeram doar 80% de sua fortuna. A própria empresa se comprometeu a doar uma ou três ações para cada ação que seus funcionários destinarem à caridade, dependendo do tempo de casa e até um limite estabelecido.
Estimativas de um insider da indústria tecnológica sugerem que o IPO da Anthropic, previsto para setembro, poderia gerar cerca de 15 bilhões de dólares anuais em doações filantrópicas adicionais. Esse valor seria suficiente para impulsionar o total de doações nos EUA em aproximadamente 2,5% ao ano — o equivalente a adicionar quatro “Bill Gates”, um dos maiores doadores do mundo.
Desafios e Preparação Estratégica
Naturalmente, esses bilhões não são garantidos. Os IPOs podem atrasar ou ter um desempenho abaixo do esperado, levando funcionários a reterem mais de sua riqueza. Observadores do setor também temem que um número paralisante de opções de caridade, somado à inconstância humana, possa fazer com que os doadores potenciais hesitem.
A competição pela atenção desses futuros doadores já é intensa. Jack Lewars, consultor de caridade, relatou que funcionários de laboratórios de IA chegam a receber até 20 e-mails não solicitados por semana de grupos em busca de fundos. No entanto, as organizações mais estratégicas estão focando em preparar-se internamente: contratando talentos, investindo em treinamento, aprimorando o marketing e utilizando automação para se posicionarem de forma a atrair essas somas massivas.
A promessa de uma nova era de filantropia impulsionada pela IA é palpável, e as ONGs estão prontas para transformar essa riqueza tecnológica em impacto social real, navegando entre a oportunidade e os desafios inerentes.